Capitão Caverna

A caverna é um ambiente de belezas inigualáveis e grandes riscos, mas não é ambiente apenas para astronautas do subterrâneo. Neste episódio do blogus, minhas dicas de como explorar cavernas horizontais sêcas

por em 06/Nov/2014

Espeleologia é uma atividade difícil. Não apenas por suas técnicas e equipamentos, pois com algum investimento em tempo e dinheiro qualquer interessado consegue se introduzir. Mas as viagens ao centro da Terra costumam ser divididas em dois grupos: aquele do turismo vulgar, com seus guias xexelentos e passeios rasos, que levam turistas atônitos por uma novidade segura para a entrada de cavernas que viraram parques temáticos. E o segundo grupo de sééérios pesquisadores e suas expedições de reconhecimento, licenças do Ibama, carimbos e associações, inalcansáveis ao aventureiro de plantão.

Lex vestido de espeleólogo na entrada de uma caverna cheia de turistas com traje de banho no lago
Nesta famosa caverna turística, nem pensar em explorações ousadas. Mas ônibus de excursão lotados são muito bem vindos. • ver esta foto

Não é muito difícil de entender tamanha disparidade: a caverna é um ambiente tão rude quanto delicado, e um aventureiro incauto pode vir a se acidentar feio (com um abismo inesperado ou um desmoronamento súbito) ou quebrar os raros e delicados espeleotemas, um crime ambiental severo. Mas cavernas horizontais secas, em que o problema maior é se perder ou acabar a luz não vejo motivo para tanta burocracia. Pois, afinal de contas, dentro da caverna não há cobras, galhos de árvores ou felinos de grande porte. Mais uma vez: o grande perigo se encontra nas cavernas com água corrente ou aquelas que possuem abismos.

Caçadores de caverna

Há uma correlação: as maiores cavernas descobertas são as que tem a maior visitação e passeios rasos e seguros e por isso mesmo limitado. Vide Santana, no Petar ou Torrinha, na Bahia, caves que só recebem visitas mais ousadas de pesquisadores. A boa notícia é que os buracos desconhecidos são quase sempre de livre acesso mas de topografia desconhecida: você pode achar um pocinho sem vergonha ou, com sorte, um sistema cavernístico quilométrico, digno de entrar nos livros de geografia. Exploração é isso: dar de cara com um beco sem saída na maioria das vezes.

A entrada vertical de uma cave aparentemente nunca explorada antes
Adivinha o que eu achei perdido no meio do sertão? • ver esta foto

Você até pode pegar o Google Earth e procurar por paisagens karsticas, mas a forma mais favorável é conhecer os senhores nativos de uma conhecida região cavernística, pois eles sempre conhecem histórias de buracos que engolem gado e que ninguém tem coragem de entrar. Esse trabalho de engenharia social consome um tanto de dinheiro, pois você vai precisar de algum tempo de pesquisa e uma logística bem trabalhada: transporte automotor até a suposta cave ou uma viagem de trekking que pode consumir alguns dias. Se a cave for vertical e requer rapel e jumar, prepare-se para carregar muito peso.

De volta aos rudimentos da navegação

Esqueça qualquer tecnologia moderna. O mapeamento e navegação dos homens-tatú é a mesma há séculos. Começam a surgir timidamente sistemas de mapeamento em 3D, digital, usando sonares e lasers, mas são aparelhos caríssimos e em fase experimental. Sendo muito cauteloso e extremamente metódico, não tem erro. Mas sem este cuidado, pode haver muito erro. A cave possui o mesmo canto da sereia dos sete mares; você vai aprofundando-se encantado com suas belezas e seduzido pelo desconhecido. Quando se dá conta, é tarde demais: você se perdeu nas migalhas de pão de João e o pé de feijão. Ou era João e Maria na selva?

Dentro de uma gruta escura, sob a luz da headlamp, um beco sem saída
E agora, para que direção mesmo? • ver esta foto

Explorar uma caverna com uma carta topográfica ou mesmo um simples croqui é um luxo muito raro; e desenhar um mapa com o mínimo de precisão no momento da sua aventura dá um trabalhão. Para o aventureiro mediano como você e eu, que queremos apenas passar algumas horas caminhando ou arrastando-se por uma paisagem diferente de tudo, precisamos voltar aos rudimentos da navegação: as pedrinhas.

Cena de uma caverna cheia de estalactites e estalagmites
Observe a seta feita com pedras soltas no chão indicando a direção de saída • ver esta foto

Cada explorador tem seu sistema pessoal de marcação. O mais importante é nunca-jamais-sob-hipótese-alguma quebrar um espeleotema para orientar-se. Nem riscar as paredes. Mas você é um leitor inteligente, culto e educado e já deve saber disso. Crie totens com pedrihas soltas no caminho, e ordene-as de modo a apontar a saída. E isso é importante: a sua baliza deve sempre apontar para a saída, e nunca para dentro da caverna, ou seja, você vai apontar suas pedrinhas na direção de onde veio. Faça-as em local de boa visibilidade, e ao afastar-se alguns metros dando segmento à sua exploração, olhe para trás e confirme se ela está bem visível. Sua marcação deve ser feita logo após uma curva ou passagem estreita, ou no meio de uma longa caminhada por um túnel contínuo. Quanto mais totens, melhor. E cobre-se constantemente de cria-los, não se deixe levar pelo canto da sereia.

O backup do backup do backup

O equipamento mais básico do explorador subterrâneo é sua fiél lanterna, seguido pelo seu leal capacete. Roupas resistentes não só ajudam como são muito necessárias. Caverna é um ambiente extremamente sujo em que você vai se arrastar por horas nos piores terrenos. Joelheira e cotoveleiras podem lhe evitar muitos machucados.

Lex deitado no chão com o equipamento de rapel espalhado
Final de um belo dia de incríveis cavernadas • ver esta foto

O pessoal do mergulho submarino tem muito a nos ensinar: o tanque de ar de um mergulhador é dividido da seguinte forma: um terço de ar para a ida, outro terço para a volta e o terço restante como margem de segurança. Lanternas? Pelo menos três. Acredito que a regra pode ser válida para o subterrâneo: pelo menos três lanternas boas (eu disse boas) e pilhas ou carga de bateria segundo a regra dos terços. E, escondido e muito bem protegido na mochila (contra impactos e estanque à água) uma caixa de fósforos e vela, como o último recurso em caso de desastre. As pilhas da lanterna têm que ser do mesmo modelo, para que você possa intercambia-los em caso de merda. E saiba previamente, testando em casa, quanto tempo suas pilhas duram, lembrando que cada marca e modelo tem capacidades muito diferentes. Até dá para ser negligente com algumas coisas no espéleo, mas com lanterna e sua energia, não. Sua vida está na mão dela. Carburteira era tão mais confiável e luminosa quanto um trambolho a mais, pena que é coisa do passado.

Equipamento de caverna à mostra: capacete, cobertor de emergência, duas lanternas Petzl, muitas pilhas, fósforo impermeáveis, caderneta de notas com duas canetas, duas bússolas, apito de sobrevivência, rolo de barbante, garrafa com água, comida, rolo de fita crepe, câmera e kit de primeiros socorros
Meu equipamento de exploração • ver esta foto

No mais, sua mochila de exploração deve ser bem resistente à abrasão e provida de água (de um a cinco litros, dependendo do seu tempo imerso), um bom apito, bússola, caderno de notas (e caneta), kit de primeiros socorros, um agasalho, lanches nutritivos e saborosos, câmera fotográfica e um relógio. As horas lá embaixo passam beeeem rápido e é fundamental voltar antes que enviem uma equipe de resgate.

Se você foi, terá que voltar. Por conta própria.

Uma caverna horizontal e sêca, não é perigosa, mas é extremamente arriscada. Dos riscos emergentes de perder-se ou acabar a luz, não há bombeiros treinados neste ambiente. Uma operação de resgate pode tornar-se um circo e você como um aventureiro consciente não vai querer ser o palhaço deste picadeiro. Estar cem por cento atento o tempo todo é extenuante e depois de uma ou duas horas de cavernada você já está completamente sem noção de direção.

Meu amigo Nondas fazendo uma pausa para beber água dentro da caverna
Uma pausa para um gole d'água • ver esta foto

Você sempre está levando contigo um excelente computador, dentro de sua cachola, então se você se perdeu, pare! Sente, tome um golinho d’água, coma um lanche e tome sua pílula imaginária de calma. Monte um totem sem direção definida. Calmamente e e com muita atenção, evitando afastar-se deste último totem de segurança comece a busca pelo totem anterior, aquele com a direção de saída. A busca deve ocorrer em forma de espiral: ao redor e próximo de onde você se ligou da cagada e expandindo o círculo até conhecer bem o local onde você se encontra para finalmente achar o caminho de volta. Nesse caso, talvez seja de bom tom sair da cave: essa é a prova do seu esgotamento mental, é hora de parar. A caverna é feita de pedra, por milhões de anos e continuará lá à sua espera. O passeio mais seguro é conhecendo bem a gruta, e a melhor forma de conhece-la é fazer muitas vezes, pouco-a-pouco. Sim, é uma atividade que requer extrema paciência e muita humildade para saber seu limite. Limite excedido leva a vida perdida.

croqui mostrando como achar seu caminho de volta numa exploração
explorando uma caverna e achando seu caminho de volta • ver esta foto

Cavernas mais complexas requerem um rolo de fita de nylon de pedreiro, para você poder abusar um pouco de túneis, passagens e salões complicados. Marcar com caneta retroprojetora e uma fita resistente um sistema de numeração nos entroncamentos faz a brincadeira ficar mais séria. Num sistema gigante por onde passei, tinha um sistema de notação: fitas resistentes com alfanuméricos, e.g. 5Y78, que eu não entendi como funciona.

Faça seu check-in, faça seu check-out…

Lembrando que temos que fazer o backup do backup do backup, a mesma coisa com a superfície. Deixe bem claro com algum amigo de confiança para onde você está indo, com quem e que horas pretende estar de volta. Seu amigo tem que saber onde a cave fica ou conhecer quem sabe chegar lá. E ao chegar na boca da caverna, deixe anotado numa fita muito bem à mostra, os mesmos detalhes. Ao sair da cave, retire este papel e leve-o de volta para uma lixeira. É um sistema de dupla checagem para evitar piores acidentes e mal entendidos. Entendeu?

Fita de check-in na entrada de uma gruta
Fita de check-in na entrada de uma gruta • ver esta foto

Aprendendo a bater uma…

…foto, é claro. Essa é fácil: esqueça flash e modo automático, foto espeleológica é coisa de gente grande. Aprenda a usar o modo manual (se a sua câmera não tem, considere a aquisição de uma que tenha), e regule a abertura para vários segundos ou bulb. O ideal é ter alguém na foto, pois isso dá noção de tamanho para quem vai ver a foto futuramente. Deixe-a num tripé (ou base bem estável) caturando luz, enquanto você pinta os espéleotemas com a luz da headlamp. Verifique o resultado e tente de novo. E mais uma vez. É uma brincadeira que consome tempo e bateria, mas de resultados inesquecíveis.

Uma bela foto tirada com longa exposição
Um foto memorável • ver esta foto

Mas tudo isso porque, meldels!?

Cavernar é a coisa que eu mais gosto de fazer. Você se arrasta por túneis pouco maior que seu corpo, bate a cabeça inúmeras vezes, fica atendo às horas e contabilizando as pilhas, sai imundo (e o equipa também), corre muito riscos (desabamentos, enchentes, abismos, isolamento, perder-se no escuro). Talvez por oferecer tantos desafios é uma atividade muito intensa psicologicamente, quem sabe até mais que a escalada. E se é extenuante, não poderia ser mais divertido. A caverna é um ambiente onírico, de belezas inigualáveis e riscos inconcebíveis, é o mais próximo da exploração de outro planeta que uma pessoa normal pode fazer.

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